2º semestre de 2026: riscos e incerteza para o comércio exterior

O primeiro semestre de 2026 termina com resultados mais favoráveis para o comércio exterior do que o esperado no início do ano. No entanto, o segundo semestre deve ser marcado por elevada incerteza, com riscos crescentes para preços, cadeias de suprimento e o comércio exterior brasileiro. A análise é do relatório do Indicador de Comércio Exterior (Icomex), divulgado pela Fundação Getulio Vargas (FGV) nesta quarta-feira, 15.
Segundo a FGV, o Relatório Focus do Banco Central de 2 de janeiro projetava a balança comercial de 2026 em US$ 66 bilhões. Já no relatório de 13 de julho, o superávit passou para US$ 76,2 bilhões. A Secretaria de Comércio Exterior também reviu suas projeções, de um superávit de US$ 72,1 bilhões para US$ 90 bilhões.
No primeiro trimestre, o aumento do preço e do volume exportado, acima do registrado nas importações, contribuiu para a melhora do saldo. Esse movimento foi reforçado pelos resultados de junho. Na comparação interanual do mês, essas diferenças levaram os termos de troca a uma variação positiva de 5,1%.
A FGV atribuiu os aumentos de preços, em grande medida, aos efeitos do conflito no Irã, que afetou canais de suprimento e elevou os custos de logística. O fechamento do Estreito de Ormuz e seus impactos nas cadeias de suprimento global aceleraram os preços do comércio internacional. No Brasil, a aceleração foi mais acentuada nas exportações. Além das tensões geopolíticas, há preocupação com o resultado da Investigação da Seção 301, que também seria divulgado nesta quarta-feira.
A balança comercial fechou o primeiro semestre com superávit de US$ 42,4 bilhões, valor US$ 12,2 bilhões acima do registrado no mesmo período de 2025. Na comparação mensal, o saldo superou os resultados do ano anterior, exceto em março. Em junho de 2026, o saldo foi de US$ 9,8 bilhões, US$ 3,9 bilhões a mais que em junho de 2025.
As principais contribuições para o aumento do superávit no primeiro semestre vieram do comércio com a China (alta de US$ 7,6 bilhões) e com a União Europeia (alta de US$ 3,1 bilhões). O restante do mundo respondeu por US$ 4 bilhões. Com os Estados Unidos, o déficit passou de US$ 1,6 bilhão para US$ 1,5 bilhão. Já com a Argentina, o superávit caiu US$ 2,1 bilhões na comparação entre os primeiros semestres de 2025 e 2026.
O valor exportado no primeiro trimestre avançou 14,4% em relação ao mesmo período do ano passado. O volume cresceu 4,2% e os preços, 6,6%. Na comparação entre junho de 2026 e o mesmo mês de 2025, o valor exportado cresceu 24,9%; o volume, 8,3%; e os preços, 15,4%.
O valor das importações oscilou 5,1% de janeiro a junho deste ano em relação ao mesmo intervalo de 2025. O volume cresceu 0,3% e os preços, 4,6%. Em junho, o incremento no valor foi de 15,4% na comparação com o mesmo mês de 2025. O volume cresceu 4,2% e os preços, 9,8%.
Na indústria de transformação, dos 24 setores, 9 registraram redução no valor exportado para os EUA. Setores de maior valor agregado, como equipamentos eletroeletrônicos e máquinas elétricas, aumentaram suas exportações totais e para os EUA. O comércio intraindústria e intrafirma de multinacionais americanas no Brasil seria uma das explicações. Por grandes setores de atividade, todos perdem exportações para os EUA. Com exceção da pesca, todos aumentam as vendas para a China, para o resto do mundo e no total.
O aumento em volume das exportações no semestre foi liderado pelas commodities (5,1%). Os preços das exportações de não commodities superaram os das commodities. Em junho, a mesma tendência no volume se repete, mas os preços das commodities superam os das não commodities.
A FGV destacou a variação nos preços e volume das importações de commodities. No acumulado até junho, as variações foram de 18,9% em preços e queda de 6,6% em volume. Na comparação interanual de junho, os indicadores passaram para avanço de 41,8% em preços e queda de 26,5% no volume. Para as não commodities, os preços subiram 7,3% e o volume, 7,4% em junho. Como as importações de commodities representam cerca de 10% do total, o efeito sobre o preço total importado é menor do que o impacto do aumento dos preços das commodities nos preços totais exportados.
Em junho, as importações de adubos ou fertilizantes recuaram 20,1% em quantum (quilos), e os preços subiram 26,1%. O quantum do óleo combustível caiu 29,7% e os preços subiram 54,5%. Adubos e óleos combustíveis foram o segundo e o terceiro principais produtos importados, respectivamente.