Milly Lacombe: Xuxa, colã e liberdade de envelhecer
A colunista Milly Lacombe, do UOL, comentou a volta de Xuxa aos palcos com a turnê "O Último Voo da Nave" e a repercussão negativa que a apresentação gerou. Para a colunista, a reação do público ao corpo da apresentadora, de 63 anos, expõe o machismo e a misoginia da sociedade.
Xuxa voltou a se apresentar para a mesma geração que a acompanhou no "Xou da Xuxa", exibido pela Globo entre 1986 e 1992. Essa audiência hoje tem entre 40 e 50 anos. Na época, era aceitável que uma jovem de 23 anos dançasse de colã na sala das famílias brasileiras. Agora, com a idade que tem, a cobrança é para que ela se recolha ao espaço privado e abandone o palco.
A colunista compara a situação de Xuxa com a de Madonna, que também enfrentou críticas por continuar se apresentando após envelhecer. Segundo ela, a iniciativa de Xuxa incomoda justamente por mostrar a liberdade de um corpo feminino envelhecido. A sociedade, historicamente, tenta restringir essa liberdade, impondo que o lugar da mulher é em casa.
Lacombe reconhece que o "Xou da Xuxa" dos anos 80 e 90 tinha problemas, como a hipersexualização da mulher para entreter crianças e a branquitude hegemônica. No entanto, ela argumenta que a histeria atual em torno do corpo da apresentadora de 63 anos é feita do mesmo material que aceitou o corpo de 23 anos de colã. A crítica atual, diz, é machismo e misoginia.
Xuxa lotou o estádio e chorou ao falar do ódio que tem recebido. No segundo show da turnê, ela escondeu a virilha, que havia causado polêmica na primeira apresentação. A colunista afirma que essa reação é típica de uma sociedade puritana, mas que, por outro lado, esconde estruturas de poder masculino com festas secretas e casos como os de Epstein e Vorcaro. Para ela, o amor, mesmo falando mais baixo, ainda é maior que o ódio.