A proposta de alteração da jornada de trabalho 6×1 no Congresso Nacional ganhou novos contornos após o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Essa discussão tem gerado preocupação nos Estúdios Globo, uma vez que a atual escala de trabalho é fundamental para a produção das novelas que vão ao ar de segunda a sábado, um formato consolidado na televisão brasileira há décadas.
A produção de uma novela pode envolver de 160 a 200 capítulos, o que exige um esforço considerável da equipe envolvida. Para oferecer um episódio inédito diariamente, em seis dias da semana, a televisão opera como uma engrenagem industrial, com gravações contínuas e várias equipes trabalhando simultaneamente. Esse ritmo intenso é mantido, principalmente, pela escala 6×1, onde o elenco e as equipes técnicas têm um dia de folga semanal.
Caso essa escala seja substituída por um modelo 5×2, o que significa cinco dias de trabalho e dois de descanso, a dinâmica atual das novelas precisaria ser reavaliada. Internamente, muitos acreditam que a quantidade de capítulos exibidos só é viável com o atual ritmo de trabalho. Sem isso, seria difícil manter a mesma produtividade.
Nos últimos anos, atores têm se manifestado sobre o desgaste causado por essa rotina exaustiva. Bianca Bin, por exemplo, optou por trabalhar por obra, buscando um melhor equilíbrio em sua vida. Antônio Fagundes também demonstrou preocupação e se afastou de produções diárias. Leandra Leal, que recentemente começou a atuar em “Coração Acelerado”, comentou sobre a intensidade da rotina de gravações, ressaltando que a produção audiovisual em outros formatos, como cinema, adota escalas mais equilibradas.
As reclamações giram em torno do fato de que a carga de trabalho atual compromete a vida pessoal dos artistas, dificultando a participação em outros projetos, sejam eles no teatro, cinema ou plataformas de streaming. Se a escala 6×1 for extinta, o problema do cansaço dos atores deixará de ser uma questão informal e se tornará um fator diretamente ligado à produção.
Frente a essa possibilidade de mudança, a Globo terá algumas opções, todas impactando seu orçamento e estratégia. Uma alternativa seria aumentar o número de frentes de gravação, o que exigiria mais diretores, estúdios e equipamentos, encarecendo as produções. Outra possibilidade é reduzir a quantidade de capítulos por semana, o que poderia implicar no fim das exibições aos sábados ou na diminuição da duração dos episódios, afetando assim também a receita publicitária.
Uma terceira opção é adotar o modelo de “obra fechada”, em que a novela é totalmente gravada antes da exibição, semelhante a séries em plataformas de streaming. Essa estratégia proporcionaria uma escala de trabalho mais equilibrada e um planejamento mais eficaz, mas retiraríamos da Globo uma parte importante da sua identidade: a possibilidade de ajustar a narrativa em resposta ao feedback do público durante a exibição.
O governo manifestou interesse em aprofundar a discussão sobre a jornada de trabalho no setor, ouvindo diferentes segmentos da sociedade. Enquanto isso, a indústria televisiva observa o desenrolar dessa questão com cautela. A mudança na jornada de trabalho não representa apenas um ajuste nas condições laborais, mas pode marcar o fim de uma era na teledramaturgia, alterando a forma como o público consome suas histórias na televisão aberta.
